De Volta à Vida

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Nas últimas semanas acompanhamos com pesar a evolução para a morte de dois bebês da aldeia global. Charlie, que nasceu com uma doença genética rara e incurável, a miopatia mitocondrial, que, já em estado terminal, teve os aparelhos que o mantinham vivo desligados. Estas almazinhas, que algumas religiões consideram que vêm apenas completar seu tempo de passagem pelo mundo, já estão prontas para a eternidade. Entretanto, seus pais vivenciaram muita dor e lutaram bravamente por seus bebês, contra tudo e todos, até sucumbirem, ainda que em franca revolta. Não há pais que se resguardem na humildade ao perderem seus filhos. Haja vista o casal carioca que teve seu Arthur alvejado dentro do útero da mãe por uma bala perdida. Todo o Brasil torceu por ele e, quando seu corpo desistiu, ficamos arrasados. Ninguém queria acreditar que ele teria sequelas, que teria problemas para andar ou falar, ou problemas de amor, de amar, porque tornou-se nosso herói, aquele que tudo suportaria.  Quantas esperanças depositamos nele, nós que vivemos tão desanimados.

Dias atrás, espalhou-se pela mídia um vídeo de um bebê sendo ressuscitado pelos médicos que haviam feito uma cesariana em sua mãe. O bebê estava inerte, arroxeado, não respirava, sem batimentos cardíacos. Os médicos, tristíssimos, não desistiram. Por mais de quarenta minutos, realizaram todas as manobras conhecidas – e enfim conseguiram que o bebê respirasse, sobrevivesse. Notaram, depois de muita luta, que havia batimentos cardíacos, porque o cordão umbilical pulsava; e depois o bebê timidamente chorou e ficou corado. Uma alegria e uma emoção que médicos e enfermeiros, esses heróis de nossas vidas, precisavam receber como recompensa pelo tanto que trabalharam.

Os médicos intensivistas e, por que não dizer, todos os médicos por vocação, salvam vidas, querem salvar a qualquer custo, têm em seu DNA a perpetuação da espécie.

Atualmente, estamos todos lidando com o outro extremo, os cuidados paliativos. Já falamos sobre isto em outro post. Quando é a hora de deixar ir aqueles que já cumpriram seu papel na vida e que precisam descansar. É duro. Quem quer ser aquele que vai desligar os aparelhos? Quem vai ser aquele a assinar o atestado de óbito? São questões muito difíceis para quem nasceu com o destino angelical de ser salvador.

É muito intenso ter uma criança em parada cardiorrespiratória no pronto-socorro. Toda a equipe tem um único objetivo. Ressuscitar. Ninguém respira quase, ninguém fala, estão no automático, fazem o que aprenderam. Salvar, salvar, salvar.

Conversei informalmente com alguns colegas que lidam com emergências em prontos-socorros e UTIs.   Evidentemente todos concordam que é muito difícil desistir, principalmente quando se trata de crianças, por isso o período de ressuscitação pode durar horas e é bastante vigoroso.  É complicado para a equipe lidar com as consequências emocionais de perder uma criança; segundo a Dra Cristina Ho,  se toda morte deixa cicatriz, a de crianças deixa rasgões profundos.

Os profissionais têm a função clara de salvar e preservar a qualidade de vida. Em uma situação de parada cardiorrespiratória, segue-se o status do paciente, definido, se possível, antes de a parada ocorrer. É preciso estabelecer que tipo de cuidados o paciente deve receber depois da reanimação. Cuidados paliativos e conforto, se já não há solução médica adequada. Haverá diferenças de conduta de acordo com as condições clínicas, a plasticidade e o prognóstico de cada paciente.

Segundo a Dra Isabel Pimenta, no universo pediátrico é importante estabelecer o contraste com o mundo adulto. Crianças têm mais resiliência e maior capacidade de recuperação que adultos.

Quanto às emoções, devemos levar em conta as duas categorias:  o grupo 1 –  equipe médica (multiprofissional e multidisciplinar) e o grupo 2 – paciente/pais/família.

Como profissionais, devemos respeitar os desejos e valores do segundo grupo, mas nem sempre isso fica muito claro e precisamos estar amparados na ética e jurisprudência, quando há conflito. Também temos emoções que, pela postura profissional, são deixadas para trás, mas que deixarão cicatrizes. É hora de  aceitar.

A Dra Cristina Ho explica que os profissionais precisam estar preparados para dar a notícia devastadora da morte. Porque acabaram de experimentar a dor da impotência, da inevitabilidade. E é preciso focar no objetivo de transmitir a mensagem e ser complacente.

Identificar primeiramente quem está na “liderança” do grupo , às vezes a mãe ou uma amiga da família, para que esta pessoa possa manter o controle sobre os outros; identificar quem são os pais/esposos/filhos/namorados…;  ser honesto e claro, dizer a verdade de forma simples, em uma área privada, longe do público; estar preparado para todo o tipo de expressão de dor: gritos, socos em paredes ou móveis, pontapés, objetos jogados no chão; estar preparado para acalmar e segurar fisicamente as pessoas; estar preparado para abraçar e ter que amparar emocionalmente as pessoas.

E depois de tudo, diz Dra Cristina, é importante conversar com toda a equipe, porque todos vão precisar de apoio emocional; porque somos todos humanos.

E todos concordaram que, com relação às crianças que foram salvas com sequelas, aquelas com lesões neurológicas, paralisias, deficiências, as famílias elaboram bem melhor do que podemos imaginar.

As mães das crianças que foram salvas não costumam desistir!

Patrícia Rati

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