Conto número cinco – O Ceramista

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Imagem: Ana Razuk

O ceramista entra no ateliê, ainda na penumbra. Começa por abrir as cortinas, deixa a luz entrar; em seguida, abre as janelas e o vento cálido e os vapores da cidade recém-desperta se espalham.

Varre minuciosamente o espaço e com a pá remove os restos de barro do trabalho do dia anterior.

Ele abre um pacote de argila terracota que retira aos nacos e começa a amassar com os dedos levemente umedecidos em água da torneira.

Suas mãos frias se aquecem com os movimentos e ele se deixa envolver pelas figuras que vê e cria em cada aperto na massa disforme.

Naquele momento, grande parte de sua energia já passou para o barro, a argila está quente.

Os potes surgem, enquanto trabalha no torno. Dispõe aqueles que termina enfileirados sobre a mesa do canto.

Enquanto isso, a cidade acorda, o tráfego se faz mais intenso, sons de buzinas, gritos que chegam do mercado.

O ceramista, alheio ao ritmo alucinante e caótico da cidade, protegido em seu ateliê, inventa as formas e as cores em um tempo que é só seu.

Patrícia Rati

A VIDA NOS CONTINUA
Contos Patrícia Rati
ⓒ 2015 Patrícia Bilharinho de Mendonça Rati
Projeto, ilustrações e realização Ana Razuk

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