Como Nise da Silveira virou personagem de Graciliano Ramos

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Elvia Bezerra – Por dentro do acervo/IMS

Nise da Silveira

Nise da Silveira

 

Graciliano Ramos por Hugo Enio Braz

Graciliano Ramos por Hugo Enio Braz

Os dois são alagoanos e não se conheciam até que a polícia do governo Getúlio Vargas  levou-os  a serem vizinhos no Complexo Presidiário Frei Caneca: Nise da Silveira na Sala 4, o cárcere feminino das presas políticas, que dividiu com Olga Prestes e outras, e Graciliano Ramos, que estava preso no Pavilhão dos Primários.

A comunicação clandestina entre os dois ambientes se fazia por meio da “pororoca”, nome que a escritora capixaba Haydée Nicolussi, uma das presas, deu à barulhenta descarga do banheiro da Sala 4. Como a parede do banheiro fazia divisão com o Pavilhão, as presas cavaram um buraquinho bem ao lado da “pororoca”, criando assim uma forma de se comunicar com os vizinhos.

Mas o encontro entre Graciliano Ramos e Nise da Silveira não teve qualquer caráter de improviso. Ao contrário, tomou um caráter até solene. Verdade que a presença dela na Sala 4 deve ter chegado aos ouvidos do escritor pela “pororoca”, mas revestiu-se de uma certa gravidade no modo como ele descreve o momento em que se apresentam um ao outro, em comovente página de Memórias do cárcere.

Numa passada larga, atingi o vão da janela: agarrei-me aos varões de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito por que me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante não atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o pátio, o vestíbulo, a escada já vista no dia anterior. No patamar, abaixo de meu observatório, uma cortina de lona ocultava a Praça Vermelha. Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se:

– Nise da Silveira.

Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário  Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento.

De pijama, sem sapatos, seguro à verga preta, achei-me ridículo e vazio; certamente causava impressão muito infeliz. Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso.

Não foi exagero do autor de Memórias quando disse a Homero Senna: “Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia… Tenho até saudades da Colônia Correcional. Deixei lá bons amigos”. Era verdade. Nise da Silveira me contou, numa das nossas deliciosas conversas, que ele andava com seus chinelos arrastando pelos corredores em absoluta tranquilidade. Não tinha qualquer pressa em sair dali, diferentemente dela, que na noite de São João de 1936, quando foi libertada, depois de um ano e seis meses de prisão, identificava-se com os balões que via no céu, livres.

 

Ainda pouco conhecida em nosso país Nise da Silveira foi uma das maiores personalidades da Psiquiatria brasileira

Em 1905, nasceu Nise da Silveira em Maceió, Alagoas. Formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1926. Foi a única mulher, entre os 156 alunos da faculdade. Em 1927 seu pai morreu e Nise foi para o Rio de Janeiro. Começou sua carreira em psiquiatria no hospital que, na época, era popularmente chamado de hospício da Praia Vermelha (hoje Hospital Pinel), em 1933. Entre 1936 e 1944 é afastada do serviço público por motivos políticos. É readmitida no serviço público e designada em 17 de abril de 1944 para ter exercício no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro (atual Instituto Municipal Nise da Silveira).

Nise recusava-se a utilizar os métodos usuais e agressivos da psiquiatria clássica – internação, eletrochoques, insulinoterapia, lobotomia e utilização indiscriminada de medicação, que até hoje deixa os pacientes em estado de torpor, impregnação. Foi deslocada, então, para o setor de Terapêutica Ocupacional, local visto pelos médicos como “pouco nobre”, onde os pacientes faziam apenas serviços de limpeza.

Foi neste local que Nise iniciou sua grande revolução. Em 1946 ela fundou a Seção Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR). Com bases em seus estudos e na sua própria rebeldia e criatividade, Nise criou um espaço em que os pacientes internos eram recebidos num ambiente acolhedor e respeitoso. Organizou ateliês para vários tipos de atividades: música, modelagem, pintura, teatro, encadernação, dentre outros. Nos ateliês os pacientes eram acompanhados por monitores, que não interferiam em sua produção.

Nise olhava para aqueles pacientes de forma diferente da psiquiatria tradicional. Valorizava o contato afetivo, pois eram pessoas que estavam sofrendo muito, já que tinham rompido o seu contato com a realidade e “mergulhavam”, sem nenhuma proteção, no inconsciente. Através do acolhimento e do respeito procurava possibilitar o caminho de volta para a realidade e a recuperação da autonomia perdida.

Além da dor provocada pelo sofrimento mental os pacientes também sofriam a discriminação no meio social e dentro do próprio hospital. O próprio ambiente hospitalar conspirava contra ao que se propunha: curar.

Nise da Silveira era uma pessoa apaixonada pelo ser humano e sua subjetividade, era movida por mistérios e desafios e buscava compreender o que acontecia nos complexos caminhos da psique humana.

Em 1952, Nise fundou o Museu das Imagens do Inconsciente, um acervo com os preciosos trabalhos criados nos ateliês da STOR: pinturas, desenhos e esculturas. O Museu também era um centro de estudo e pesquisa dessas obras. Por meio desse trabalho introduz a psicologia junguiana no Brasil.

Alguns anos mais tarde, em 1956, mobilizando um grupo de pessoas motivadas pelas mesmas ideias, Nise realiza mais um projeto revolucionário para a época: a criação da Casa das Palmeiras, uma instituição independente de convênios, destinada ao tratamento de egressos de instituições psiquiátricas, onde atividades expressivas são utilizadas como forma de tratamento e realizadas livremente, em regime de externato. Na época era grande o número de pacientes que eram reinternados (70%), isto ocorria devido a dificuldade dos ex-pacientes serem integrados a comunidade, algo essencial para a recuperação deles.

O objetivo da Casa das Palmeira era o de ser um local em que os egressos do hospício poderiam, gradualmente, recuperar a auto-estima e a independência, através de diversas formas de expressão criativa e do convívio com profissionais que tinham uma postura de respeito e cuidado.

A lógica de cuidado e funcionamento da Casa das Palmeiras é completamente diferente dos hospitais psiquiátricos: as portas e janelas são abertas, não há enfermeiros, a frequência é diária (cerca de 5 horas por dia), os psiquiatras, psicólogos, artistas, monitores e estagiários não usam jaleco e se posicionam lado a lado ao paciente nas atividades, na hora do lanche, nas festas. Com a base de sólidos conhecimentos científicos, (principalmente da psicologia junguiana, da terapia ocupacional e da antipsiquiatria) e da sua experiência no Centro Psiquiátrico Pedro II, Nise orientou o trabalho desenvolvido na Casa das Palmeiras, sempre enfatizando a importância do contato afetivo e da expressão criativa para a recuperação das pessoas ali atendidas. A Casa das Palmeiras ainda funciona (está em sua 3ª sede), e a maioria de seus pacientes não retornou ao Hospital Psiquiátrico.

O Museu das Imagens do Inconsciente continua existindo graças à Sociedade dos Amigos do Museu do Inconsciente e à fama internacional adquirida pela divulgação de pesquisas lá realizadas e das obras que impressionaram críticos de artes, artistas e pesquisadores do Brasil e do Exterior.

Nise da Silveira era profunda conhecedora de Freud, mas através da Psicologia de Carl Gustav Jung pode buscar sentidos nas vivências dos pacientes, dramaticamente representadas por seus trabalhos plásticos.

Nise da Silveira é considerada a introdutora do estudo sistemático da psicologia analítica no Brasil, sendo responsável pela formação do Grupo de Estudos C.G. Jung, do qual foi presidente desde 1968. Foi Jung que através de pesquisas chegou ao conceito de Inconsciente Coletivo, que ultrapassa as fronteiras do Inconsciente Pessoal. O Inconsciente Coletivo possui camadas profundas com heranças comuns a toda a humanidade. Ele tem como elementos estruturais os arquétipos. Estes só podem ser conhecidos indiretamente através de imagens presentes em religiões, contos de fada, desenhos alquímicos, mitos dentre outras manifestações da cultura coletiva. As pinturas, desenhos e esculturas do Museu de Imagens do Inconsciente formam um acervo imenso (são milhares de obras), repleto dessas imagens e também de imagens que representam a visão do pintor do mundo externo, sua percepção do mundo, além de vivências subjetivas na relação com o espaço e com o outro.

Nise da Silveira escreveu diversos livros e textos sobre o assunto. Realizou exposições com os trabalhos de seus pacientes e divulgou-os através de catálogos de fotos. As homenagens, prêmios e títulos por ela recebidos são inúmeros, em reconhecimento de seu prestígio tanto nacional como internacionalmente. Suas pesquisas sobre terapêutica ocupacional e a compreensão do processo psicótico por meio das imagens do inconsciente deram origem, ao longo dos anos, a exposições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências. Foi também pioneira na pesquisa das relações afetivas entre pacientes e animais, aos quais chamava de co-terapeutas.

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió (AL), no dia 15 de fevereiro de 1905, e morreu no Rio de Janeiro em outubro de 1999, aos 94 anos. Costumava dizer: “Felizmente, eu nunca convivi com gente muito ajuizada“.

No ano de 2000, o Centro Psiquiátrico Pedro II é municipalizado e, em sua homenagem, passa a chamar-se Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira.

Em homenagem ao Centenário de Nise da Silveira, em 2005, os Correios lançaram um selo

Em homenagem ao Centenário de Nise da Silveira, em 2005, os Correios lançaram um selo

“O selo apresenta, em primeiro plano, o perfil de Nise da Silveira, à direita, e o perfil de um gato, à esquerda, animal admirado pela psiquiatra por sua liberdade, independência e altivez. Em segundo plano, são apresentadas a figura de Nise admirando pinturas criadas por pacientes; uma mandala, símbolo de integração psíquica presente em vários desenhos de seus “clientes”; e um grupo de doentes em convivência. Ao centro, o Manto da Apresentação, criado por Arthur Bispo do Rosário, interno esquizofrênico da Colônia Juliano Moreira. Apesar de não ter sido paciente da Dra. Nise, ao contrário do que muitos consideram, suas obras afirmam a capacidade criadora dos portadores de sofrimento psíquico e, por isso, são comumente associadas às teorias desenvolvidas pela psiquiatra.” (Texto de autoria dos Correios).

Nise era assim:

Foi quando certo dia um rapaz frequentador da Terapia Ocupacional, em vez de entrar em uma das salas de trabalho masculino preferiu entrar numa das salas de atividades femininas atraído pelas qualidades latentes que pressentia existirem num pedaço de veludo estendido sobre a mesa da sala. Dirigiu-se à monitora Maria Abdo e perguntou: “Posso com este pano fazer um gato?” A resposta foi sim. Então, Luís Carlos começou a manipular o pedaço de veludo, dando-lhe a forma de um gato. A monitora ficou surpreendida, mas não interveio, salvo na colocação dos olhos do gato, a pedido de Luís Carlos

Completado assim o gato, Luís Carlos tomou um lápis e escreveu:

Gato simplesmente angorá

do mato

azul olhos nariz cinza

gato marrom

orelha castanho macho

agora rapidez

Emoção de lidar.

Enquanto manipulava seu gato de veludo, com surpreendente habilidade, Luís Carlos parecia feliz e disse: “Como é macio! Sinto grande emoção de lidar com ele entre minhas mãos’.

Essa expressão Emoção de Lidar foi ponto de partida para substituirmos o pesado título Terapêutica Ocupacional.

Do livro Gatos, a emoção de lidar

Publicações de Nise Da Silveira

EM LIVROS:

  1. Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil. Tese apresentada à Faculdade de Medicina da Bahia. Imprensa Oficial do Estado, 1926.
  2. Jung Vida e Obra
    José Álvaro, Editor – atualmente na 10ª edição – 1ª edição em 1968
  3. Terapêutica Ocupacional – Teoria e Prática
    Edição Casa das Palmeiras, Rio de Janeiro, 1979
  4. Os Cavalos de Octávio Ignácio (Organização)
    Funarte, 1980 – Fotografia de Humberto Francheschi
  5. Coleção Museus Brasileiros Vol. 2 – Museu de Imagens do Inconsciente
    Funarte, 1980
  6. Imagens do Inconsciente
    Editorial Alhambra, Rio 1ª edição outubro de 1981
    3ª edição maio de 1987
  7. Casa das Palmeiras: A emoção de lidar
    Coordenação e prefácio de uma experiência em psiquiatria.
    Alhambra, 1986.
  8. A Farra do Boi
    Numen Editora, 1989
  9. Artaud – a nostalgia do mais
    Númem Editora, 1989 – Com Rubens Correa, Marco Lucchesi e Milton Freire
  10. Cartas a Spinoza
    Editora Numem, 1990
  11. O Mundo das Imagens
    Editora Ática, 1992
  12. Gatos: A Emoção de Lidar
    Léo Christiano Editorial. Rio, 1998

TEXTOS EM PERIÓDICOS CIENTÍFICOS:

  1. Estado Mental dos Afásicos
    Revista de Medicina, Cirurgia e Farmácia, nº 101, setembro/1944
  2. Considerações Teóricas sobre Ocupação Terapêutica
    Revista de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Rio de janeiro, Junho/1952
  3. Contribuição aos estudos dos efeitos da leucotomia sobre a atividade criadora.
    Revista de Medicina, Cirurgia e Farmácia, nº 225. Rio de Janeiro, janeiro/1955.
  4. Expérience d’art spontané chez des schizophrènes dans un service de therapeutique occupationelle – Em colaboração com o Dr. Pierre Le Gallais, trabalho apresentado no II Congresso Internacional de Psiquiatria, Zurique 1957. Congress Report v.4, p.380-86. 1957. Tradução para o português, Quaternio, n. 7, Grupo de Estudos C. G. Jung, Rio de Janeiro, 1996.
  5. G. Jung e a psiquiatria
    Revista Brasileira de Saúde Mental, Rio de Janeiro, v. 7 1962-63
  6. Simbolismo do Gato. Quaternio, revista do Grupo de Estudos C.G.Jung, n. 1, Rio de Janeiro, 1965
  7. No Reino das Mães: um caso de esquizofrenia estudado através da expressão plástica. Revista Brasileira de Saúde Mental, v. 9, Rio de Janeiro, 1966
  8. 20 anos de Terapêutica Ocupacional em Engenho de Dentro (1946-1966)
    Revista Brasileira de Saúde Mental, vol. 12 – Rio de Janeiro, 1966
  9. Perspectivas da psicologia de C. G. Jung
    Revista Tempo Brasileiro, nº21/22, 1970
  10. Herbert Read: Em memória. Revista Quaternio, n. 2, Rio de Janeiro, 1970
  11. Dionysos: Um Comentário Psicológico. Quaternio, n. 3, Rio de Janeiro, 1973
  12. Deus-Mãe. Quaternio, n.4, Rio de Janeiro, 1975
  13. Retrospectiva de um trabalho vivido no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Anais do XIV Congresso Nacional de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental. Maceió, 1979. Vivência – Órgão da Associação Alagoana de Psiquiatria, 1980

CATÁLOGOS

  1. Imagens do Inconsciente
    Introdução para o catálogo da exposição apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em várias cidades brasileiras, em comemoração ao centenário de C. G. Jung (1975).
  2. Arte Incomum, XVI Bienal de São Paulo. São Paulo, Ed. Maria Otília Bocchini 1981.
  3. Os Inumeráveis Estados do Ser
    Prefácio para o catálogo da exposição apresentada em maio-junho de 1987, no Paço Imperial do Rio de Janeiro, No Palácio das Artes de Belo Horizonte e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; Na Fundação Calouste Gulbenkian, como representante do Brasil no evento Lisboa Capital Européia da Cultura (1994) e no Istituto Italo-Latinoamericano (Roma) como representante do Brasil nas comemorações dos 50 anos da ONU.
  4. O Gato como Co-Terapeuta. Catálogo da exposição Bilder des Umbewussten aus Brasilien. Museu de Imagens do Inconsciente, Frankfurt – 1994
  5. Arqueologia da Psique .Catálogo da exposição realizada no Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal em Brasília – Nov/97. Espaço Cultural da Caixa em Curitiba, Julho/98 e Espaço Cultural da Caixa, Rio de Janeiro Nov/98. No XVII Congresso Brasileiro de Psicanálise, Rio de Janeiro Abril/99
  6. O Mundo das Imagens, no catálogo do Módulo Imagens do Inconsciente da Mostra do Redescobrimento, Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais. São Paulo, 2000.

 

Nise – O Coração da Loucura louva a arte no tratamento psiquiátrico

Julio Adrião e Glória Pires em cena de Nise - O Coração da Loucura

Julio Adrião e Glória Pires em cena de Nise – O Coração da Loucura

Os relatos de amigos e colaboradores da alagoana Nise da Silveira (1905-1999), a médica que revolucionou o atendimento psiquiátrico no Brasil, dizem que ela era tão doida quanto seus pacientes – ou clientes, como fazia questão de tratá-los. Embora esse lado selvagem esteja amaciado na fantástica interpretação de Glória Pires – premiada como Melhor Atriz no Festival Internacional de Tóquio, em 2015 –, o que transparece na cinebiografia Nise – O Coração da Loucura, é o suficiente para vê-la como uma mulher que chutou portas para impor sua visão humanista nos hospícios brasileiros.

O coração da loucura – Trailer oficial

Gostou? Então tente assistir aqui.

Na verdade, o filme não é uma cinebiografia de fato, mas um recorte do trabalho de Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio, em 1944, onde ela implantou a ideia de tratar os clientes esquizofrênicos por meio da arte. Ao contrário dos métodos desumanos da época, que ela testemunhou horrorizada, Nise trocou eletrochoques e perfurações cranianas – usados pelos colegas psiquiatras para lobotomizar os doentes – por tintas, pincéis, telas, cães e gatos. Numa palavra: afeto.

Essa conjunção de métodos heterodoxos, que ela aprendeu estudando a obra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, traduziu-se num pioneiro método de tratamento que até hoje tem ajudado os esquizofrênicos a terem uma vida em que a arte suplanta a doença. Nise da Silveira – O Coração da Loucura tem direção de Robert Berliner, um cineasta formado na escola documentária, que já havia demonstrado um apreço especial por seres humanos em dificuldades, como as três irmãs cegas de A pessoa é para o que Nasce, e o músico Herbert Vianna, em Herbert de Perto, em que acompanha o líder do Paralamas após o acidente aéreo que o deixou paraplégico.

Neste seu segundo longa-metragem de ficção, Berliner não só teve uma interprete à altura de Nise da Silveira, como uma trupe de atores fantásticos para viver os doentes que se tornaram pintores reconhecidos pela crítica de arte e que encantaram o Brasil e o mundo. Os atores Julio Adrião (Carlos Pertuis), Fabrício Boliveira (Fernando Diniz), Simone Mazzar (Adelina Gomes), Claudio Jaborandy (Emygdio de Barros), Roney Vilela (Lucio Noemann), Flavio Bauraqui (Octávio Ignácio) e Bernardo Marinho (Raphael Domingues) mereciam um prêmio especial pelo conjunto de suas atuações.

Sem medo de emocionar e jamais descambar para o grotesco, Berliner foi extremamente feliz ao realizar um filme tocante, sem espaço para a tristeza. Ao contrário do choque gratuito, o filme é de uma sensibilidade ímpar, com abertura para o humor e a criatividade que aflora de cada um dos doentes. Apesar de muito conhecida, a história de Nise da Silveira estava pedindo uma versão cinematográfica que exprimisse o quanto ela foi importante para a psiquiatria e a arte brasileiras.

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